À data de 25 de janeiro atribui-se a conversão de Saulo de Tarso ao cristianismo, quando este adota o nome Paulo e sai em peregrinação para pregar ou contar a boa nova aos gentios, os não-judeus. Sem as andanças de Paulo e suas pregações com certeza o cristianismo não teria chegado aonde chegou, não teria a força que tem e talvez nem existisse. Não cabe aqui discutir se Paulo estava alinhado com o que os apóstolos pregavam ou se fez ou não modificações ao que Jesus teria dito. Estamos aqui para falar de sua conversão e do que podemos entender por conversão.

Vejam bem, Saulo, como é descrito no livro dos Atos dos Apóstolos, era um feroz opositor às idéias da seita que crescia no interior da instituição judaica. Caçava e prendia os seguidores da tal seita que espalhavam suas idéias insidiosas e subversivas. Estava a caminho de Damasco quando teve a revelação que determinou o curso de sua vida a partir de então. E esta revelação foi algo tão grandioso que o fez cair de joelhos. Foi como se algo maior que a vida simplesmente se fizesse conhecido. Algo que sua mente não podia então compreender em sua totalidade. A visão que teve deixou-o cego, tanto que precisou de ajuda para chegar à cidade onde teria sua visão devolvida por um dos integrantes da seita que perseguira tão ferozmente até então.

Tal experiência mística não é muito bem aceita por Unitários-universalistas em geral. A idéia do mistério, do que está envolto em brumas, não parece muito apreciável ao nosso sempre questionador apetite. Nossa primeira reação pode ser simplesmente desacreditar da experiência alheia como um delírio, uma ilusão, uma brincadeira da imaginação de uma pessoa fragilizada. Filósofos, psicólogos e outros cientistas criaram hipóteses e teorias sobre tais experiências, umas mais aceitas que outras mas uma verdade se mantém: depois de um momento como esse, aquele que experimentou o evento nunca mais volta a ver o mundo com os mesmos olhos.

Vamos brincar um pouco com as palavras e conjecturar sobre o que ocorre num momento desses. Vou lhes dar meu ponto de vista e estou mais que disposta a dividir o seu. Voltemos a nosso amigo Saulo em sua justa missão de expurgar a ameaça que se avizinha, indo a Damasco com seus companheiros. Ele começa a pensar sobre tudo o que vira, sobre tudo o que ouvira e fizera. Começa a pensar no amigo Estevão cuja amizade cultivara desde longa data e que conhecera bem. Amigo este que morrera pelo que acreditavam os tais seguidores do nazareno. Em sua caminhada pensamentos começavam a se formar e esvair e novas possibilidades se faziam presentes na mente do fariseu. Tais possibilidades conflitavam com as verdades que tinha para si, com tudo o que fazia dele ele. É então que emerge a verdade incontestável e é uma coisa tão intolerável que nosso Saulo vai ao chão como que se sentindo aniquilado em seu pequeno ser.

A experiência é tão aterradora que sua mente, até então clara se anuvia de tal modo que o mundo não mais faz sentido, trazendo a cegueira como manifestação metafórica (ou até histérica) da confusão que se instala na alma do mais pio. Por mais que seus acompanhantes tentem trazê-lo de volta, a estrada pela qual seguira sua vida até então não mais lhe serviria e o caminho a frente ainda era coberto de névoa, somente sendo descoberto pelas mãos do discípulo Ananias. Daquele momento em diante Saulo não mais podia ser o que fora até então. Surge então Paulo, o “vaso escolhido para levar o seu nome diante dos gentios, e dos reis, e dos filhos de Israel.” Saulo estava morto e renascido como um novo ser.

Pensemos em nossa experiência terrena, mundana. Quantas vezes nossas verdades internas foram desafiadas num nível em que se tornaram tão insustentáveis que nossos seres não mais podiam se apegar a elas e se viram obrigados a abandonar de vez por todas as antigas estradas para novos caminhos trilhar? Falo por experiência própria que hoje não poderia alegar categoricamente tudo que alegava poucos anos atrás. Aquelas verdades já não fazem sentido. Um novo eu nasceu no momento em que isso aconteceu e é disso, a meu ver, que se trata a conversão. O renascimento de um ser numa nova realidade psíquica e espiritual onde as cores e os sons levam necessariamente a novos significados talvez imperceptíveis ou, quiçá inaceitáveis numa existência anterior.

Me lembro especificamente de uma entrevista que ouvi recentemente de um pastor norteamericano que, depois de anos dentro do evangelicalismo e com uma reputação que se estendia por todo o país viu-se obrigado a mudar de ponto de vista ao ver cenas de crianças na África. Ele perguntou a Deus como aquelas pessoas que sofriam tanto podiam ser mandadas para o inferno simplesmente por não ter tido acesso à Palavra. Ele recebeu a resposta. Ouviu a voz de Deus lhe perguntando se era isso que pensava que Ele queria para seus filhos. O pastor concluiu que o inferno como pregara até então simplesmente não podia existir e que os homens fazem o inferno na Terra, no aqui e agora. Sua reputação foi pelo ralo quando declarou suas novas convicções. Sua congregação que antes contava com mais de dois mil membros esvaziou e as pessoas que chamava de amigos o evitavam. Hoje ele defende um ponto de vista muito parecido com o nosso e sua pequena congregação luta para sobreviver. Ele sabe que seu ser é um ser renovado e que terá de enfrentar ainda muita resistência para ser ouvido, do mesmo jeito que Paulo enfrentou.

Contudo essa experiência não tem, necessariamente, que nos consumir como consumiu Saulo/Paulo – não que elas não sejam possíveis. Acredito que pequenas conversões aconteçam conosco com mais freqüência do que possamos perceber: um sentimento que aflora, um fato que descobrimos, uma visão que toma nossa consciência. Nossos seres, enquanto unitários-universalistas acostumaram-se, percebo, a uma certa fluidez que permite-nos convertermo-nos, talvez, com muito menos estresse que daquelas pessoas, de personalidade mais rígida, que possuem tanta certeza sobre o que se lhes apresenta enquanto realidade.

Encerrando, peço que durante seus dias tentem refletir sobre como essas pequenas e grandes conversões nos trouxeram até o ponto em que estamos agora. Tentem lembrar-se da dificuldade e da dor que o parto desse novo ser que nasceu em vocês representou e nas inúmeras possibilidades que esse novo ser tem pela frente. A cada dia. A cada manhã.

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