O Verde Que Ecoa
O Sol se eleva
E os céus alegra;
À Primavera, o carrilhão
Badala sua saudação.
O tordo e a cotovia,
No arbusto, em cantoria,
Soam por todo lugar
Com sinos a badalar,
Enquanto brincamos à toa
Por sobre o Verde que Ecoa.
Com cabelos brancos, João
Sorri, desprezando atenção;
Sentado sob o carvalho
Em meio aos velhos grisalhos
Que, às nossas folias, ridentes,
Dizem imediatamente:
“Eram assim nossas folias
Quando, meninos e meninas,
Éramos vistos à toa
Por sobre o Verde Que Ecoa.”
Até que os meninos, cansados,
Não mais podem ser alegrados;
O sol aos poucos se apaga
E nossa brincadeira acaba.
Nos colos de nossas mães,
Vários irmãos e irmãs
São como aves aninhadas
Que ao sono são preparadas.
Folia não mais acontece
Por sobre o Verde que escurece.
William Blake, Canções da Inocência
Tradução de Gilberto Sorbini e Weimar de Carvalho
É Primavera
Desde que começamos nossas reuniões, que assumimos nossos compromissos com o unitário-universalismo, tenho por mim a idéia de que para trazer para nossa terra esse jeito de ver a religiosidade e a espiritualidade, devemos ter um olhar introspectivo. Mais que olhar para como as coisas são feitas por nossos irmãos em outras partes do mundo, precisamos desenvolver nossa própria maneira de celebrar a vida.
Nessa tônica, criamos o hábito de celebrar as entradas das estações. Neste ano já falamos do outono e do inverno, com suas características e congruências com nossas vidas. É chegada a Primavera, e outra vez é tempo de celebrar o início de um novo ciclo.
Gosto bastante do poema de Blake, escolhido para a abertura de nossos trabalhos por rememorar um pouco do sentido dessa nova estação. Na primeira estrofe vemos o resplendor da Natureza despertando. Os cantos dos pássaros, qual sinos nas torres das igrejas, anunciam o novo tempo. Tempo de fartura e regogizo.
Sinto que essa é uma das imagens mais fortes que a Primavera tem para mim. Sempre imagino campos floridos, adoro a fantasia de kilometros sem fim de flores ainda úmidas com as gotas do orvalho. Flores amarelas, vermelhas, violetas, enfim. E o som de uma orquestra de pássaros pequenos – quisera eu saber-lhes os nomes – toma os ares em sinfonias tão belas que nos atém como que por magia.
Na segunda estrofe, a imagem é a de anciãos que repousam sob os carvalhos da vida, a observar as novas gerações em sua plenitude a brincar, correr e pular por entre o verde que abunda. Ao vê-los os anciãos reeditam memórias da própria juventude, constatando que há uma ordem nas coisas da vida.
Cada um de nós tem a oportunidade de viver esse Verde que Ecoa. Sentir a força da nova vida que ecoa por entre nossos corpos. A força que nos move para o desenvolvimento, para a plenitude. Como brotos e botões, começamos a nos abrir para um novo mundo de possibilidade e realizações. Como os anciãos e os carvalhos, chegará o dia de observarmos as novas gerações tomando nossos lugares, para então nos reconhecermos com nostalgia em suas risadas na lembrança do que já fomos.
A última parte nos mostra o fim do dia, com o sol que vagarosamente se põe. As crianças que corriam agora se aninham para dormir. Fala também dos garotos que cresceram e cujo tempo de folias há muito terminou. Para mim, a idéia é de que a Primavera da vida é como o dia que tem seu fim sabido de antemão. Ao ver o sol mover-se no céu sabemos que o fim do dia se aproxima e que devemos aproveitar enquanto o calor ainda alimenta nossas folias.
A Primavera é um tempo de muita energia. A vida abunda em todos os sentidos. É o tempo do nascimento. Sinto que o elemento fogo, do sol que volta a brilhar e alimenta nossas vidas retorna depois de um inverno de introspecção. Sinto que o elemento água, escasso no seco inverno, começa a retornar e trazer de volta as emoções que nos preenchem, junto às chuvas que parcimoniosas no inverno devem refrescar-nos em breve.
Senhores, aproveitem esse novo momento. Parem para sentir o cheiro das flores e ouvir o canto dos pássaros. Aproveitem para sentir a brisa úmida que cobre os campos com orvalho. Nessa primavera retomemos o contato com nossa natureza. Percebamos o quanto ainda podemos correr e sorrir por entre os campos.
Que seja uma boa Primavera para todos.
